Posted 5 months ago

Encontrei-te. Era o mês… Que importa o mês? Agosto, 
Setembro, outubro, maio, abril, janeiro ou março,
Brilhasse o luar que importa? ou fosse o sol já posto, 
No teu olhar todo o meu sonho andava esparso.

Que saudades de amor na aurora do teu rosto!
Que horizonte de fé, no olhar tranqüilo e garço!
Nunca mais me lembrei se era no mês de agosto,
Setembro, outubro, abril, maio, janeiro, ou março.

Encontrei-te. Depois… depois tudo se some
Desfaz-se o teu olhar em nuvens de ouro e poeira.
Era o dia… Que importa o dia, um simples nome?

Ou sábado sem luz, domingo sem conforto, 
Segunda, terça ou quarta, ou quinta ou sexta-feira, 
Brilhasse o sol que importa? ou fosse o luar já morto?

(Alphonsus de Guimarães)

(Source: lightsglisten)

Posted 6 months ago
Quando adivinha que vou vê-Ia, e à escadaOuve-me a voz e o meu andar conhece,Fica pálida, assusta-se, estremece,E não sei por que foge envergonhada.Volta depois. À porta, alvoroçada,Sorrindo, em fogo as faces, aparece:E talvez entendendo a muda preceDe meus olhos, adianta-se apressada.Corre, delira, multiplica os passos;E o chão, sob os seus passos murmurando,Segue-a de um hino, de um rumor de festaE ah! que desejo de a tomar nos braços,O movimento rápido sustandoDas duas asas que a paixão lhe empresta.
(Olavo Bilac)

Quando adivinha que vou vê-Ia, e à escada
Ouve-me a voz e o meu andar conhece,
Fica pálida, assusta-se, estremece,
E não sei por que foge envergonhada.

Volta depois. À porta, alvoroçada,
Sorrindo, em fogo as faces, aparece:
E talvez entendendo a muda prece
De meus olhos, adianta-se apressada.

Corre, delira, multiplica os passos;
E o chão, sob os seus passos murmurando,
Segue-a de um hino, de um rumor de festa

E ah! que desejo de a tomar nos braços,
movimento rápido sustando
Das duas asas que a paixão lhe empresta.

(Olavo Bilac)

(Source: enfloresce)

Posted 6 months ago

Trindade

 

A vida é uma planta misteriosa 
Cheia d’espinhos, negra de amarguras 
Onde só abrem duas flores puras -

Poesia e amor… 
 

E a mulher… é a nota suspirosa 
Que treme d’alma a corda estremecida, 
É fada que nos leva além da vida 
Pálidos de langor! 
 

A poesia é a luz da mocidade, 
O amor é o poema dos sentidos, 
A febre dos momentos não dormidos 
E o sonhar da ventura… 
 

Voltai, sonhos de amor e de saudade! 
Quero ainda sentir arder-me o sangue, 
Os olhos turvos, o meu peito langue, 
E morrer de ternura!

(Source: acompletelife)

Posted 6 months ago
A violeta mais bela que amanhece
no vale, por esmalte da verdura,
com seu pálido lustre e fermosura,
por mais bela, Violante, te obedece.

Perguntas-me porquê? Porque aparece
seu nome em ti e sua cor mais pura;
e estudar em [teu] rosto só procura
tudo quanto em beldade mais florece.

Oh! luminosa flor, oh! Sol mais claro,
único roubador de meu sentido,
não permitas que Amor me seja avaro!

Oh! penetrante seta de Cupido,
que queres? Que te peça, por reparo,
ser, neste vale, Eneias desta Dido?

(Camões)

A violeta mais bela que amanhece

no vale, por esmalte da verdura,

com seu pálido lustre e fermosura,

por mais bela, Violante, te obedece.

Perguntas-me porquê? Porque aparece

seu nome em ti e sua cor mais pura;

e estudar em [teu] rosto só procura

tudo quanto em beldade mais florece.

Oh! luminosa flor, oh! Sol mais claro,

único roubador de meu sentido,

não permitas que Amor me seja avaro!

Oh! penetrante seta de Cupido,

que queres? Que te peça, por reparo,

ser, neste vale, Eneias desta Dido?

(Camões)

Posted 7 months ago
Maria
Tenho cantado esperancas… 
Tenho falado d’amores… 
Das saudades e dos sonhos 
Com que embalo as minhas dores…  





Entre os ventos suspirando 
Vagas, tênues harmonias, 
Tendes visto como correm 
Minhas doidas fantasias. 





E eu cuidei que era poesia 
Todo esse louco sonhar… 
Cuidei saber o que é vida 
Só porque sei delirar…  





Só porque a noite, dormindo 
Ao seio duma visao, 
Encontrava algum alívio, 
Meu dorido coração,





Cuidei ser amor aquilo
E ser aquilo viver…
Oh! que sonhos que se abracam
Quando se quer esquecer!





Eram fantasmas que à noite
Trouxe, e o dia já levou…
À luz d’estranha alvorada
Hoje minha alma acordou!





Esquecei aqueles cantos…
Só agora sei falar!

Maria

Tenho cantado esperancas… 

Tenho falado d’amores… 

Das saudades e dos sonhos 

Com que embalo as minhas dores…  

Entre os ventos suspirando 

Vagas, tênues harmonias, 

Tendes visto como correm 

Minhas doidas fantasias. 

E eu cuidei que era poesia 

Todo esse louco sonhar… 

Cuidei saber o que é vida 

Só porque sei delirar…  

Só porque a noite, dormindo 

Ao seio duma visao, 

Encontrava algum alívio, 

Meu dorido coração,

Cuidei ser amor aquilo

E ser aquilo viver…

Oh! que sonhos que se abracam

Quando se quer esquecer!

Eram fantasmas que à noite

Trouxe, e o dia já levou…

À luz d’estranha alvorada

Hoje minha alma acordou!

Esquecei aqueles cantos…

Só agora sei falar!

Posted 7 months ago
Meu desejo 
Meu desejo? era ser a luva brancaQue essa tua gentil mãozinha aperta:A camélia que murcha no teu seio,O anjo que por te ver do céu deserta…. 
Meu desejo? era ser o sapatinhoQue teu mimoso pé no baile encerra….A esperança que sonhas no futuro,As saudades que tens aqui na terra…. 
Meu desejo? era ser o cortinadoQue não conta os mistérios do teu leito;Era de teu colar de negra sedaSer a cruz com que dormes sobre o peito. 
Meu desejo? era ser o teu espelhoQue mais bela te vê quando deslaçasDo baile as roupas de escomilha e floresE mira-te amoroso as nuas graças! 
Meu desejo? era ser desse teu leitoDe cambraia o lençol, o travesseiroCom que velas o seio, onde repousas,Solto o cabelo, o rosto feiticeiro…. 
Meu desejo? era ser a voz da terraQue da estrela do céu ouvisse amor!Ser o amante que sonhas, que desejasNas cismas encantadas de languor!

(Álvares de Azevedo)

Meu desejo 

Meu desejo? era ser a luva branca
Que essa tua gentil mãozinha aperta:
A camélia que murcha no teu seio,
O anjo que por te ver do céu deserta….
 


Meu desejo? era ser o sapatinho
Que teu mimoso pé no baile encerra….
A esperança que sonhas no futuro,
As saudades que tens aqui na terra….
 


Meu desejo? era ser o cortinado
Que não conta os mistérios do teu leito;
Era de teu colar de negra seda
Ser a cruz com que dormes sobre o peito.
 


Meu desejo? era ser o teu espelho
Que mais bela te vê quando deslaças
Do baile as roupas de escomilha e flores
E mira-te amoroso as nuas graças!
 


Meu desejo? era ser desse teu leito
De cambraia o lençol, o travesseiro
Com que velas o seio, onde repousas,
Solto o cabelo, o rosto feiticeiro….
 


Meu desejo? era ser a voz da terra
Que da estrela do céu ouvisse amor!
Ser o amante que sonhas, que desejas
Nas cismas encantadas de languor!

(Álvares de Azevedo)

(Source: tayllorswifts)

Posted 7 months ago

O ESPÍRITO DA LETRA

Ao pé da letra agora, em minha vida 
há a morte e uma mulher… E a letra dela, 
a primeira, me busca e me martela 
ouvido adentro a mesma despedida 

outra vez e outra vez, sempre espremida 
entre as vogais do amor… Mas como vê-la 
sem exumar uma vez mais a estrela 
que há anos-luz se esbate sem saída, 

sem prazo de morrer na luz que treme?! 
O mostro que eu matei deixou-me a marca 
suas pernas abertas ante a Parca 

aparecem-me em tudo: é a letra M 
a da Medusa que eu amei, a barca 
sem amarras, sem remos e sem leme…

(Bruno Tolentino)

mimbeau:

Les Champs Elysées

Paris circa 1957

Janine Niepce

Posted 7 months ago

SE EU te dissesse que cindindo os mares,
Triste, pendido sobre a vítrea vaga,
Eu desfolhava de teu nome as pétalas
Ao salso vento, que as marés afaga…


Se eu te dissesse que por ermos cimos,
Por ínvios trilhos de uni país distante,
Teu casto riso, teu olhar celeste
Ungia o lábio ao viajor errante;


Se eu te dissesse que do alvergue à ermida,
Do monte ao vale, da chapada à selva,
Junta comigo vagueou tua alma;
Junta comigo pernoitou na relva;


Se eu te dissesse que ao relento frio
Dei minha fronte à viração gemente,
E olhando o rumo de teu lar — saudoso,
Molhei as trevas de meu pranto algente;


Se eu te dissesse, bela flor das saias!
Que eu dei teu nome dos sertões às flores!… 
E ousei, na trova em que os pastores gemem, 
Por ti, senhora, improvisar de amores;


Se eu te dissesse que tu foste a concha
Que o peregrino traz da Terra Santa,
Mago amuleto que no seio mora,
Doce relíquia… talismã que encanta!… ;


Se eu te dissesse que tu foste a rosa
Que ornava a gorra ao menestrel divino;
Cruz que o Templário conchegava ao peito
Quando nas naves reboava o hino;


Se eu te dissse que tu és, criança!
O anjo-da-guarda que me orvalha as preces…;
Se eu te disserte… — Foi talvez mentira! —
Se eu te dissesse… Tu talvez dissesses…

(Castro Alves)

girls-snap:

untitled by RagtimeWillie on Flickr.

Posted 7 months ago
Como eu desejo a que ali vai na rua,
Tão ágil, tão agreste, tão de amor…
Como eu quisera emaranhá-la nua,
Bebê-la em espasmos de harmonia e cor!…

Desejo errado… Se a tivera um dia,
Toda sem véus, a carne estilizada
Sob o meu corpo arfando transbordada,
Nem mesmo assim — ó ânsia! — eu a teria…

Eu vibraria só agonizante
Sobre o seu corpo de êxtases dourados,
Se fosse aqueles seios transtornados,
Se fosse aquele sexo aglutinante…

De embate ao meu amor todo me ruo,
E vejo-me em destroço até vencendo:
É que eu teria só, sentindo e sendo
Aquilo que estrebucho e não possuo.

Mário de Sá-Carneiro

Como eu desejo a que ali vai na rua,

Tão ágil, tão agreste, tão de amor…

Como eu quisera emaranhá-la nua,

Bebê-la em espasmos de harmonia e cor!…

Desejo errado… Se a tivera um dia,

Toda sem véus, a carne estilizada

Sob o meu corpo arfando transbordada,

Nem mesmo assim — ó ânsia! — eu a teria…

Eu vibraria só agonizante

Sobre o seu corpo de êxtases dourados,

Se fosse aqueles seios transtornados,

Se fosse aquele sexo aglutinante…

De embate ao meu amor todo me ruo,

E vejo-me em destroço até vencendo:

É que eu teria só, sentindo e sendo

Aquilo que estrebucho e não possuo.

Mário de Sá-Carneiro

Posted 1 year ago
A flor que és, não a que dás, eu quero.

Porque me negas o que te não peço.

Tempo há para negares 

Depois de teres dado.  

Flor, sê-me flor! Se te colher avaro 

A mão da infausta esfinge, tu perere 

Sombra errarás absurda,

Buscando o que não deste.

(Fernando Pessoa)

A flor que és, não a que dás, eu quero.

Porque me negas o que te não peço.

Tempo há para negares 

Depois de teres dado.  

Flor, sê-me flor! Se te colher avaro 

A mão da infausta esfinge, tu perere 

Sombra errarás absurda,

Buscando o que não deste.

(Fernando Pessoa)