Posted 1 week ago

O lenço dela


Quando a primeira vez, da minha terra

Deixei as noites de amoroso encanto,
A minha doce amante suspirando
Volveu-me os olhos úmidos de pranto.
 


Um romance cantou de despedida,
Mas a saudade amortecia o canto!
Lágrimas enxugou nos olhos belos…
E deu-me o lenço que molhava o pranto.
 


Quantos anos contudo já passaram!
Não olvido porém amor tão santo!
Guardo ainda num cofre perfumado
O lenço dela que molhava o pranto…
 


Nunca mais a encontrei na minha vida,
Eu contudo, meu Deus, amava-a tanto!
Oh! quando eu morra estendam no meu rosto
O lenço que eu banhei também de pranto!

(Álvares de Azevedo)

(Source: litquake)

Posted 1 month ago


Quando eu não te tinha
Amava a Natureza como um monge calmo a Cristo…
Agora amo a Natureza
Como um monge calmo à Virgem Maria,
Religiosamente, a meu modo, como dantes,
Mas de outra maneira mais comovida e próxima…
Vejo melhor os rios quando vou contigo
Pelos campos até à beira dos rios;
Sentado a teu lado reparando nas nuvens
Reparo nelas melhor-
Tu não me tiraste a Natureza…
Tu mudaste a Natureza…
Trouxeste-me a Natureza para o pé de mim,
Por tu existires vejo-a melhor, mas a mesma,
Por tu me amares, amo-a do mesmo modo, mas mais,
Por tu me escolheres para te ter e te amar,
Os meus olhos fitaram-na mais demoradamente
Sobre todas as coisas.
Não me arrependo do que fui outrora
Porque ainda o sou.

(Fernando Pessoa)

michaelrecycles:

Posted 2 months ago
Encarnação
Carnais, sejam carnais tantos desejos, carnais, sejam carnais tantos anseios, palpitações e frêmitos e enleios, das harpas da emoção tantos arpejos… Sonhos, que vão, por trêmulos adejos, à noite, ao luar, intumescer os seios láteos, de finos e azulados veios de virgindade, de pudor, de pejos… Sejam carnais todos os sonhos brumos de estranhos, vagos, estrelados rumos onde as Visões do amor dormem geladas… Sonhos, palpitações, desejos e ânsias formem, com claridades e fragrâncias, a encarnação das lívidas Amadas!
(Cruz e Sousa)

Encarnação

Carnais, sejam carnais tantos desejos, 
carnais, sejam carnais tantos anseios, 
palpitações e frêmitos e enleios, 
das harpas da emoção tantos arpejos… 
Sonhos, que vão, por trêmulos adejos, 
à noite, ao luar, intumescer os seios 
láteos, de finos e azulados veios 
de virgindade, de pudor, de pejos… 

Sejam carnais todos os sonhos brumos 
de estranhos, vagos, estrelados rumos 
onde as Visões do amor dormem geladas… 

Sonhos, palpitações, desejos e ânsias 
formem, com claridades e fragrâncias, 
a encarnação das lívidas Amadas!

(Cruz e Sousa)

Posted 4 months ago
Boa noite
Boa noite, Maria! Eu vou,me embora.A lua nas janelas bate em cheio.Boa noite, Maria! É tarde… é tarde. .Não me apertes assim contra teu seio.Boa noite! … E tu dizes - Boa noite.Mas não digas assim por entre beijos… Mas não mo digas descobrindo o peito,— Mar de amor onde vagam meus desejos!Julieta do céu! Ouve… a calhandra já rumoreja o canto da matina.Tu dizes que eu menti? … pois foi mentira… Quem cantou foi teu hálito, divina!Se a estrela-d’alva os derradeiros raiosDerrama nos jardins do Capuleto,Eu direi, me esquecendo d’alvorada:“É noite ainda em teu cabelo preto…”É noite ainda! Brilha na cambraia— Desmanchado o roupão, a espádua nuaO globo de teu peito entre os arminhosComo entre as névoas se balouça a lua…É noite, pois! Durmamos, Julieta!Recende a alcova ao trescalar das flores. Fechemos sobre nós estas cortinas…— São as asas do arcanjo dos amores.A frouxa luz da alabastrina lâmpadaLambe voluptuosa os teus contornos…Oh! Deixa-me aquecer teus pés divinosAo doudo afago de meus lábios mornos.Mulher do meu amor! Quando aos meus beijosTreme tua alma, como a lira ao vento,Das teclas de teu seio que harmonias,Que escalas de suspiros, bebo atento!Ai! Canta a cavatina do delírio, Ri, suspira, soluça, anseia e chora…Marion! Marion!… É noite ainda.Que importa os raios de uma nova aurora?!…Como um negro e sombrio firmamento,Sobre mim desenrola teu cabelo…E deixa-me dormir balbuciando:— Boa noite! — formosa Consuelo.

(Castro Alves)
hellanne:

(by Evssic)

Boa noite

Boa noite, Maria! Eu vou,me embora.
A lua nas janelas bate em cheio.
Boa noite, Maria! É tarde… é tarde. .
Não me apertes assim contra teu seio.


Boa noite! … E tu dizes - Boa noite.
Mas não digas assim por entre beijos… 
Mas não mo digas descobrindo o peito,
— Mar de amor onde vagam meus desejos!


Julieta do céu! Ouve… a calhandra 
já rumoreja o canto da matina.
Tu dizes que eu menti? … pois foi mentira… 
Quem cantou foi teu hálito, divina!


Se a estrela-d’alva os derradeiros raios
Derrama nos jardins do Capuleto,
Eu direi, me esquecendo d’alvorada:
“É noite ainda em teu cabelo preto…”


É noite ainda! Brilha na cambraia
— Desmanchado o roupão, a espádua nua
O globo de teu peito entre os arminhos
Como entre as névoas se balouça a lua…


É noite, pois! Durmamos, Julieta!
Recende a alcova ao trescalar das flores. 
Fechemos sobre nós estas cortinas…
— São as asas do arcanjo dos amores.


A frouxa luz da alabastrina lâmpada
Lambe voluptuosa os teus contornos…
Oh! Deixa-me aquecer teus pés divinos
Ao doudo afago de meus lábios mornos.


Mulher do meu amor! Quando aos meus beijos
Treme tua alma, como a lira ao vento,
Das teclas de teu seio que harmonias,
Que escalas de suspiros, bebo atento!


Ai! Canta a cavatina do delírio, 
Ri, suspira, soluça, anseia e chora…
Marion! Marion!… É noite ainda.
Que importa os raios de uma nova aurora?!…


Como um negro e sombrio firmamento,
Sobre mim desenrola teu cabelo…
E deixa-me dormir balbuciando:
— Boa noite! — formosa Consuelo.

(Castro Alves)

hellanne:

(by Evssic)

Posted 9 months ago
Adeus, Meus sonhos!
Adeus, meus sonhos, eu pranteio e morro! Não levo da existência uma saudade! E tanta vida que meu peito enchia Morreu na minha triste mocidade! Misérrimo! Votei meus pobres dias À sina doida de um amor sem fruto, E minh’alma na treva agora dorme Como um olhar que a morte envolve em luto. Que me resta, meu Deus? Morra comigo A estrela de meus cândidos amores, Já não vejo no meu peito morto Um punhado sequer de murchas flores!
(Álvares de Azevedo)

michaelrecycles:

❤

Adeus, Meus sonhos!

Adeus, meus sonhos, eu pranteio e morro! 
Não levo da existência uma saudade! 
E tanta vida que meu peito enchia 
Morreu na minha triste mocidade! 
Misérrimo! Votei meus pobres dias 
À sina doida de um amor sem fruto, 
E minh’alma na treva agora dorme 
Como um olhar que a morte envolve em luto. 
Que me resta, meu Deus? 
Morra comigo 
A estrela de meus cândidos amores, 
Já não vejo no meu peito morto 
Um punhado sequer de murchas flores!

(Álvares de Azevedo)

michaelrecycles:

Posted 9 months ago
Onde estás
É meia-noite… e rugindo Passa triste a ventania,Como um verbo de desgraça,Como um grito de agonia.E eu digo ao vento, que passaPor meus cabelos fugaz:“Vento frio do deserto,Onde ela está? Longe ou perto?”Mas, como um hálito incerto,Responde-me o eco ao longe:“Oh! minh’amante, onde estás?…Vem! É tarde! Por que tardas?São horas de brando sono,Vem reclinar-te em meu peitoCom teu lânguido abandono! …‘Stá vazio nosso leito…‘Stá vazio o mundo inteiro; E tu não queres qu’eu fique Solitário nesta vida…Mas por que tardas, querida?…Já tenho esperado assaz…Vem depressa, que eu deliroOh! minh’amante, onde estás? …Estrela — na tempestade,Rosa — nos ermos da vida;lris — do náufrago errante,Ilusão — d’alma descrida!Tu foste, mulher formosa!Tu foste, ó filha do céu! …… E hoje que o meu passadoPara sempre morto jaz…Vendo finda a minha sorte,Pergunto aos ventos do Norte…“Oh! minh’amante, onde estás?…”
(Castro Alves)

Onde estás

É meia-noite… e rugindo 
Passa triste a ventania,
Como um verbo de desgraça,
Como um grito de agonia.
E eu digo ao vento, que passa
Por meus cabelos fugaz:
“Vento frio do deserto,
Onde ela está? Longe ou perto?”
Mas, como um hálito incerto,
Responde-me o eco ao longe:
“Oh! minh’amante, onde estás?…


Vem! É tarde! Por que tardas?
São horas de brando sono,
Vem reclinar-te em meu peito
Com teu lânguido abandono! …
‘Stá vazio nosso leito…
‘Stá vazio o mundo inteiro; 
E tu não queres qu’eu fique 
Solitário nesta vida…
Mas por que tardas, querida?…
Já tenho esperado assaz…
Vem depressa, que eu deliro
Oh! minh’amante, onde estás? …


Estrela — na tempestade,
Rosa — nos ermos da vida;
lris — do náufrago errante,
Ilusão — d’alma descrida!
Tu foste, mulher formosa!
Tu foste, ó filha do céu! …
… E hoje que o meu passado
Para sempre morto jaz…
Vendo finda a minha sorte,
Pergunto aos ventos do Norte…
“Oh! minh’amante, onde estás?…”

(Castro Alves)

(Source: indesciffrada)

Posted 9 months ago
Intimidade
Quando, sorrindo, vais passando, e toda 
Essa gente te mira cobicosa, 
Es bela - e se te nao comparo a rosa, 
E que a rosa, bem ves, passou de moda…  


Anda-me as vezes a cabeca a roda, 
Atras de ti tambem, flor caprichosa! 
Nem pode haver, na multidao ruidosa, 
Coisa mais linda, mais absurda e doida. 


Mas e na intimidade e no segredo, 
Quando tu coras e sorris a medo, 
Que me apraz ver-te e que te adoro, flor! 


E nao te quero nunca tanto (ouve isto) 
Como quando por ti, por mim, por Cristo, Juras
- mentindo - que me tens amor… 
(Antero de Quental)

Intimidade

Quando, sorrindo, vais passando, e toda 

Essa gente te mira cobicosa, 

Es bela - e se te nao comparo a rosa, 

E que a rosa, bem ves, passou de moda…  

Anda-me as vezes a cabeca a roda, 

Atras de ti tambem, flor caprichosa! 

Nem pode haver, na multidao ruidosa, 

Coisa mais linda, mais absurda e doida. 

Mas e na intimidade e no segredo, 

Quando tu coras e sorris a medo, 

Que me apraz ver-te e que te adoro, flor! 

E nao te quero nunca tanto (ouve isto) 

Como quando por ti, por mim, por Cristo, Juras

- mentindo - que me tens amor… 

(Antero de Quental)

Posted 9 months ago

Tempos do verbo amar


Ó tu que falas tanto de amor e de paixão,
Que dizes adorar tua mulher,
Por causa dela darias tua vida
E nunca cansas de chamá-la de querida.


Ó tu cujo desejo louco não controlas
E pensas e sonhas o tempo inteiro
Com esta bela criatura, com esta fada,
A quem chamas “minha linda namorada”.


Ó tu que julgas sempre impossível
Viver sem a deusa do amor que te seduz
E para quem juras em nome de Jesus,
Que nunca, nunca irás abandoná-la.


Ó tu que dizes todo tempo: “Não suporto
Viver sem esta paixão que me alucina;
Que me cega, me maltrata, me fascina”,
Responde-me sinceramente:


E se amanhã ela sofresse um acidente
E um membro tivesse que amputar;
Se fosse desfigurada de repente
E sumisse aquele brilho em seu olhar?


Se uma manhã ao levantar da cama
Ela se visse com um câncer de mama
E uma delas tivesse que operar
Sendo imperioso mutilar?


E se acaso lhe “surtasse” uma loucura,
Tão repentinamente como um raio
E a ti ela fizesse de lacaio,
Te injuriasse, e se tornasse uma tortura?


Será que o teu amor seria igual,
Farias para ela com o teu pinho
Uma seresta de ternura e de carinho?
Ou então lhe dirias simplesmente,


Sem esconder na voz o tom brutal,
Sem o menor remorso, mas com um riso
Cínico: “Amor, desculpa, mas preciso
Ir embora. Já vou indo: tchau”? 

(Raymundo Silveira)

reginasworld:

Man on the Edge By Dimitar Variysky.

Posted 10 months ago


Simpatia - é o sentimento
Que nasce num só momento,
Sincero, no coração;
São dois olhares acesos
Bem juntos, unidos, presos
Numa mágica atração.


Simpatia - são dois galhos
Banhados de bons orvalhos
Nas mangueiras do jardim;
Bem longe às vezes nascidos,
Mas que se juntam crescidos
E que se abraçam por fim.


São duas almas bem gêmeas
Que riem no mesmo riso,
Que choram nos mesmos ais;
São vozes de dois amantes,
Duas liras semelhantes,
Ou dois poemas iguais.


Simpatia - meu anjinho,
É o canto de passarinho,
É o doce aroma da flor;
São nuvens dum céu d’agosto
É o que m’inspira teu rosto…
- Simpatia - é quase amor!

(Casimiro de Abreu)

Posted 1 year ago

Ao coração que sofre, separado
Do teu, no exílio em que a chorar me vejo,
Não basta o afeto simples e sagrado
Com que das desventuras me protejo.

Não me basta saber que sou amado,
Nem só desejo o teu amor: desejo
Ter nos braços teu corpo delicado,
Ter na boca a doçura de teu beijo.

E as justas ambições que me consomem
Não me envergonham: pois maior baixeza
Não há que a terra pelo céu trocar;

E mais eleva o coração de um homem
Ser de homem sempre e, na maior pureza,
Ficar na terra e humanamente amar.


(Olavo Bilac)

(Source: )